A presença do glúten na alimentação rotineira das pessoas vem sendo cada vez mais pautada em sugestões de dietas e motivos de ganho ou perda de peso. O portal Toque de Bola conversou com a nutricionista esportiva e do Vôlei UFJF, Mary Tabet Gonçalves, educadora física há 27 anos, que esclareceu boatos do consumo de glúten, reiterando a importância de alguns passos na alimentação diária de um atleta.
Confira, na íntegra, a entrevista com a nutricionista e educadora física Mary Tabet:
Toque de Bola: O que é o glúten? Onde ele é encontrado?
Mary Tabet: O glúten é uma proteína que vem agregada para dar uma certa consistência. Ele está em pães, aveia, cevada, enfim, praticamente quase tudo tem glúten. Há artigos científicos que comprovam que ele auxilia no ganho de massa. O glúten está agregado na vida de todo mundo, não é algo que o atleta usa ou não usa.
Toque de Bola: Se um atleta não é celíaco, ou seja, não apresenta intolerância ao glúten, ele deve cortar esta proteína da sua alimentação?
Mary Tabet: Só devem retirar o glúten se ele for intolerante, o que deve ser diagnosticado após exames. O uso do glúten não faz diferença nenhuma na vida do atleta, a não ser que ele tenha uma intolerância. Hoje, alguns nutricionistas e até médicos tiram o glúten sem fazer exames e as pessoas se sentem melhor. Mas isso acontece por conta da retirada do pão e dos aditivos que existem nele. É o tempo de prateleira. Se você fizer um pão em casa com o seu fermento, sua farinha, isso não vai acontecer, porque é natural. Imagina aquele pão que vai ficar duas, três semanas parado na prateleira. Em um ponto natural, ele fica dois, três dias no máximo e está mofando. Por que? Porque a natureza é assim. Passei um mês na Europa e comia todos os dias o pão integral de padaria. No dia seguinte ele ficava duro, que nem pedra. Fui estudar a diferença. Os pães confeccionados no Brasil têm muito mais fermento para que cresçam e fiquem prontos mais rápido. Então não respeitam o tempo de fermentação. O estufamento, por exemplo, que as pessoas têm, vem é do fermento. Os pães daqui possuem 30% a mais de fermento e colocam a culpa no glúten. Então se você tem intolerância ao glúten, faça a retirada dele. Mas eu não retiro o glúten de ninguém se não há intolerância. Tem muita gente que corta o glúten por blogueiros e pessoas que não são capacitadas. Se sou intolerante à lactose, não é por isso que vou tirar o leite. Tomo ele sem lactose.
Toque de Bola: Então o problema não é o glúten, mas os aditivos nos alimentos que possuem a proteína?
Mary Tabet: Isso. O que ‘mata’ as pessoas hoje é o tempo de prateleira, porque as indústrias têm que mudar de postura, porque tenho a preocupação da quantidade de sódio, de açúcar. O que utilizo hoje é a dieta do mediterrâneo, que é saudável, com gorduras boas, e você come pão, azeite, tudo do bom e do melhor. A melhor alimentação é aquela a que você se adapta. É com o corredor, com o atleta de vôlei ou qualquer outro paciente.
Toque de Bola: É errado dizer que os alimentos sem glúten são mais saudáveis?
Mary Tabet: Não é correto. Porque o alimento sem glúten pode ter um índice glicêmico mais alto e às vezes ser até mais calórico do que um alimento normal. É moda. Agora tudo é batata doce e frango, daqui a pouco outros alimentos vão entrar. Sou adapta da beterraba, inhame, abóbora. Cada um responde de um jeito. Individualidades ideológicas devem ser respeitadas. Hoje os celíacos sofrem muito porque os alimentos deles são muito caros, já que todos estão utilizando. Mas aquilo é para celíacos. Será que com você retirando o glúten da alimentação seu corpo não vai fazer uma resistência? E se fizer, quando você voltar a consumir o glúten, pode ter diarreia, absorção.
Toque de Bola: O consumo de glúten deve ser alterado de acordo com a idade do paciente?
Mary Tabet: Não. Quem é intolerante não aguenta nada. Tenho pacientes celíacos e qualquer quantidade de glúten faz eles passarem muito mal. Se não for celíaco, não tem quantidade, pode ingerir o quanto quiser.
Toque de Bola: Quais suas recomendações aos atletas sobre o consumo de glúten?
Mary Tabet: Ele é que dá consistência. É só comer uma torrada sem glúten para ver a diferença na textura. O problema consiste nos aditivos e quantidade de fermento. Então a dica que eu passo aos atletas é a de que faça seus alimentos, prepare-os. Têm que respeitar a primeira lei da nutrição: comer de três em três horas sabendo os volumes que cada alimento tem para cobrir a carga de treino. Gastamos de 30 a 60g de carboidratos por hora, dependendo da intensidade do treino. Então você deve repor. Se não houver reposição, você usará seu músculo como fonte de energia, falando a grosso modo, porque aminoácidos serão usados para a fabricação de glicose. Então é necessário que você saia 45 minutos antes do treino alimentado e hidratado em uma quantidade calculada.
Toque de Bola: Que alimentos um atleta deve consumir sempre antes, depois e durante seu dia-a-dia cansativo de trabalho e treinamentos?
Mary Tabet: Frutas, legumes, verduras em quantidades calculadas dependendo de cada pessoa, alimentação pré-treino e pós treino de forma rica, principalmente em carboidratos e proteínas, mas em uma quantidade calculada para cada pessoa, isso não tem jeito. E variar a alimentação, comer de três em três horas, manter a hidratação boa e repousar, o que é muito importante também.
Texto: Bruno Kaehler
Arte: Toque de Bola
