Crônica: Telê Santana e as histórias que vão muito além do futebol

Telê Santana em visita a Juiz de Fora para o desfile de abertura da Copa Prefeitura Bahamas de Futebol Amador, ao lado do Editor do Portal Toque de Bola, Ivan Elias

É fato.

Das coisas que meu pai conversava comigo, o futebol sem dúvida estava entre as mais frequentes.

Ele era muuuuito Fluminense, também era Baeta e as histórias do esporte da cidade também rendiam boa prosa.

O tempo das preliminares de aspirantes, o Industrial Mineira, as inaugurações dos refletores dos estádios, o trio de ferro dos dirigentes de Sport, Tupi e Tupynambás, e por aí seguia…

Quando vi, neste emaranhado da internet, que neste dia 26 de julho de 2025 Telê Santana estaria completando 94 anos, as lembranças de tudo que meu pai me contava sobre Telê brotaram fortes, até misturando um pouco os flashes do Flu e do esporte local. Vocês vão entender adiante.

     (Parênteses: posso estar enganado em datas, mas não na essência da mensagem. Que maneira elegante de dizer que a memória pode estar falhando, hein?)

“Seu” João Pedro Hallack contava que serviu o exército em Juiz de Fora com um dos irmãos de Telê e na época tinha a função de receber e entregar as cartas aos “conscritos” no quartel. E entre as cartas, chamava a atenção quando havia alguma carta do Telê ao irmão, endereçada das Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

Papai também dizia que, quando Telê estava começando a se destacar nas categorias de base, quase foi contratado pelo Sport Club Juiz de Fora. Parece que, numa partida em que foi observado, não brilhou tanto como se esperava e o convite não se concretizou.

Enquanto tento desembaralhar os relatos na memória, posso garantir – aqui não há mais dúvida – que aquele jovem Telê foi jogar no Fluminense do seu João, craque com apelido de “Fio da Esperança”, por ser franzino e raçudo, e também foi treinador do tricolor das Laranjeiras. Campeão nas duas funções, diga-se de passagem.

Meu pai não tinha, que eu me lembre, muitos ídolos incontestáveis no futebol. Mas com o Telê era diferente. Não só pelo que dizia respeito às quatro linhas, mas, talvez tanto quanto ou mais, por sua conduta na vida pessoal. Justo, correto, digno.

Sinceridade e personalidade fortes. Depois de anotar um golaço, foi arguído por um trepidante comunicador: “Foi sem querer?”, perguntaram. “Se fosse um gol do Pelé, você talvez não fizesse esta pergunta”, retrucou.

Em outro momento, como treinador, “comprou a briga” dos jogadores que, por uma decisão absurda de um cartola (pleonasmo?), não queria permitir que os atletas entrassem nas Laranjeiras pelo mesmo portão que os associados do Club. Telê “peitou” o (famoso quem?) cartola e a decisão foi suspensa.

Como treinador da seleção brasileira, a equipe de Telê é reconhecida até hoje como uma das melhores seleções do mundo, mesmo sem a conquista da Copa do Mundo.

Me lembro que havia um quadro no programa do Jô Soares. O humorista fazia um torcedor que ligava de um “orelhão” e o bordão principal era “bota ponta, Telê”. Quando eu fui na onda e repeti esse bordão, em casa, não digo que meu pai censurou, porque lá em casa nunca fomos educados a incentivar censura e muito menos a aceitar tortura. Mas ele não gostou.

Era como se eu estivesse de alguma forma colocando em dúvida a capacidade ou o senso de justiça de Telê.

Já tive a oportunidade – e a felicidade – de contar pessoalmente a Telê sobre esta admiração do meu pai por ele. Nos tempos em que ele era treinador e eu repórter de rádio. Sempre nos tratou com a maior educação, embora não gostasse de entrevistas em dias de jogos.

A foto que ilustra a crônica é de quando Telê veio a Juiz de Fora, convidado para o desfile de abertura da então Copa Prefeitura Bahamas de Futebol Amador. Já estava com a saúde um pouco debilitada. Ele e a esposa Ivonete, porém, não deixaram de atender a um apelo de torcedor – para foto, abraço ou outra situação. Que casal espetacular, gente!

Fica esta nossa mensagem na crônica. Telê, meu pai, futebol, Fluminense, caráter, bondade.

Conforme eu vinha dizendo, das coisas que meu pai conversava comigo, o futebol sem dúvida estava entre as mais frequentes.

E, como se vê, nunca fui só sobre futebol.

 

Texto: Ivan Elias

 

Ivan Elias

Ivan Elias, associado do Panathlon Club de Juiz de Fora, é jornalista, formado em Comunicação Social pela UFJF. Trabalhou por mais de 11 anos no Sistema Solar de Comunicação (Rádio Solar e jornal Tribuna de Minas), em Juiz de Fora. Participou de centenas de transmissões esportivas ao vivo (futebol, vôlei, etc). Apresentou diversos programas de esporte e de humor, incluindo a criação de personagens. Já foi freelancer da Folha de S. Paulo, atuou como produtor de matérias de TV e em 2007 e 2008 “defendeu” o Tupi, na Bancada Democrática do Alterosa Esporte, da TV Alterosa (SBT-Minas). Criou, em 2010, ao lado de Mônica Valentim, o então blog Toque de Bola que hoje é Portal, aplicativo, Spotify, Canal no Youtube e está no Twitter, Instagram e Facebook, formando a maior vitrine de exposição do esporte local É filiado à Associação Mineira de Cronistas Esportivos (AMCE) e Associação Brasileira de Cronistas Esportivos (Abrace).

Este post tem 2 comentários

  1. Luiz Henrique

    Tele Santana é o terceiro jogador que mais atuou pelo Fluminense com 559 jogos, tendo marcado 162 gols sendo o quinto maior artilheiro do clube.

  2. Miriam Ibraim Hallack

    Chorei.

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