Alvo de inúmeras críticas desde que foi anunciado na função, o novo ministro do Esporte, George Hilton, em seu discurso de posse, admitiu não ser familiarizado com a pasta que assumiu. “Gostaria de tranquilizá-los para dizer: posso não entender profundamente de esportes, mas entendo de gente. Eu sei ouvir as pessoas, sei dialogar”, disse.
O passado do deputado mineiro do Partido Republicano Brasileiro (PRB) é polêmico, não por questões esportivas. Segundo informações divulgadas na época, em 2005 o pastor da Igreja Universal foi flagrado e detido pela Polícia Federal no aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, com 11 caixas com cheques e notas, num total de R$ 600 mil, mas depois foi liberado. O deputado justificou, na oportunidade, que o dinheiro vinha de doações de fieis.
A reconhecida falta de contato mais próximo com o esporte em sua trajetória política, agravada pela desconfiança provocada por esse episódio da detenção, gerou revolta entre pessoas ligadas ao esporte.
O Toque de Bola procurou dois estudiosos para entender melhor quais são os efeitos que essa nomeação pode trazer ao País. Os juizforanos Jeferson Vianna, doutor em Ciência do Esporte, chefe do Departamento de Esporte da UFJF e integrante da Academia de Treinadores do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), e Luiz Carlos Pessoa Nery, professor de Educação Física e doutorando em Gestão do Esporte, não veem com bons olhos a indicação de George Hilton e mostram pessimismo em relação ao rumo da gestão desportiva no Brasil.
Descaso

“É uma decepção enorme. É a prova que o esporte está entregue ao descaso, um fator desmotivador para quem quer se especializar”, disse Luiz.
Jeferson acredita que isso acontece em todas as esferas públicas: “São escolhas equivocadas, não só no âmbito federal, no estadual e municipal também acontece. Escolhem por arranjos políticos e não pela capacidade”.
Além do currículo negativo de George Hilton, a falta de afinidade com área e principalmente com a gestão esportiva são as maiores preocupações de ambos. “Não precisa viver do esporte para ser um bom ministro. Precisa entender de gestão da área, e ele não tem nenhum dos dois. Estamos indo na contramão do que deveria ser o correto, que é planejar um legado estrutural, cultural e esportivo para todo o Brasil. Mas ao invés disso, estamos entregando o esporte nas mãos de uma pessoa despreparada para lidar com isso tudo”, enfatizou Luiz.
“A preocupação maior é não conseguir atender as expectativas. Já que ele não entende do assunto, precisa ter uma equipe forte que saiba gerir tudo da melhor maneira possível. A má gestão da verba pública é o maior problema para a falta de estrutura. Um exemplo é o centro de alto rendimento (Centro de Formação Olímpica), na capital cearense, que custou milhões aos cofres públicos e não sabem como utilizá-lo”.
Nota da redação: de acordo com o “Povo on Line”, de Fortaleza, o centro foi inaugurado parcialmente no último dia 30: “Previsto para ser entregue integralmente em março de 2015, faltam ao CFO a conclusão do sistema de climatização e da fachada no ginásio principal”, afirmou a publicação em 31 de dezembro.

Pressão dos atletas
Jeferson emenda: “Mesmo faltando tanta coisa, o país no ano de 2014 mostrou evolução em alguns resultados esportivos. Temos que ampliar e difundir ainda mais algumas modalidades para que possamos melhorar gradativamente”, pondera.
Sobre essa reação nacional diante da nomeação de George Hilton, Luiz entende que o protestos dos atletas é legítimo, mas que só isso não basta. Jeferson acredita que, com toda essa pressão, o novo ministro já está com os dias contados. Contudo, mesmo entendendo que não foi a melhor escolha, ambos torcem para que ele consiga desempenhar um bom papel no ministério.
“É importante que os atletas de renome como os que fazem parte da ONG “Atletas pelo Brasil” levantem essa bandeira e mostrem que não estão satisfeitos com o rumo que as coisas estão tomando e que façam uma forte oposição para que o ministro saiba que existem pessoas que estão fiscalizando e acompanhando todas as suas decisões”, concluiu Jeferson.
Olimpíadas: aeroportos e Baía preocupam
Sobre as perspectivas para os próximos anos, Luiz entende que as Olimpíadas serão um marco na história do País, mas não sabe dizer se será um marco positivo, e apontou qual o caminho para um verdadeiro legado de melhorias no esporte. “As Olimpíadas no Rio irão acontecer, mas será uma festa para os outros e para nós pode ser um desastre. Alguns exemplos são os aeroportos que foram prometidos para a Copa que não ficaram prontos e que podem não ficar nem para as Olimpíadas. A promessa de que a Baía de Guanabara estaria limpa para os Jogos até hoje não foi concluída. É essa a imagem que o Brasil quer passar para o restante do mundo? Precisamos e torço para que este ministro faça a proposta de novas políticas públicas esportivas, de obrigatoriedade de pessoas formadas em gestão do esporte em cargos de qualquer tipo de associações e secretarias da área e mais cursos de gestão desportiva. Sem isso, o esporte brasileiro vai passar em branco nesses próximos anos”, finalizou.
Texto: Guilherme Fernandes
Fotos: Arquivo Toque de Bola