Estádio Salles Oliveira
Anos 70, 80.
O Tupi sempre foi branco e preto.
O futebol era branco e preto.
Depois de subir uma escadinha, pedíamos licença na velha arquibancada para pular a marquise e garantir vaga naquele lugar privilegiado. Cadeira? Lugar numerado? Padrão Fifa? Nem pensar.
Aquele chão duro e inclinado pertinho do gramado foi, em muitas tardes de domingo, o melhor lugar do mundo. Os jogadores do Tupi saíam do vestiário e passavam por um corredor, protegidos só pelo alambrado, em que os torcedores podiam tocá-los, conversar, elogiar, reclamar, dar tapinha nas costas.
Os adversários, do outro lado, mesmo inimigos por um dia, também eram íntimos. “Mamucha” de laranja neles era o auge de uma eventual “agressão”. Sem STJD.
Ah, na área próxima ao vestiário, os lugares de torcedores fieis e tradicionais eram marcados. Reparem: não eram numerados, mas marcados mesmo. Entre os próprios torcedores. Se faltasse um naquele dia, ninguém ocupava o seu lugar. Era um código seguido à risca.
Paulo Roberto, Lilinho, Zé Eduardo Bodega, Júlio Maravilha, Márcio Carrapato, Waldir Chaves, Paulinho, Betinho Castro, Formiga, Roberto Pato, Leão. Não sei se todos jogaram juntos. Podemos estar misturando, confundindo com Zé Maria no meio-campo, Teophilo na meia-esquerda, os gêmeos Samir e Munir. Magalhães.
Dos outros vestiários, já saíram Alemão, Casagrande, muita gente de futebol grande.
Mas o jogo era sempre quase igual. Porque o Tupi nunca deixou de ser grande.
Estádio José Procópio Teixeira
Campo do Sport. Casa cheia. Tupi x Atlético. Tudo em preto e branco. Final dos anos 80. Adil, aberto pela esquerda, faz um golaço. Precisávamos de uma chamada para a capa da Tribuna de Minas. Título em três linhas com, no máximo, 11 “batidas” cada linha.
Depois de algumas esfregadas na Olivetti mais próxima (Gepeto não era, na época, sequer sonho de consumo e o Senac ainda não oferecia o curso Basic I), sai o título que expressaria melhor o que foi a partida.
“Tupi faz
um a zero.
E foi pouco”
Para ilustrar, na página de esportes, uma incrível sequência de fotos do gol de Adil, pelas lentes de Roberto Fulgêncio. Máquina digital? Twitter? Orkut? Face? Instagram? Que nada! No jornal do dia seguinte mesmo. Preto e branco.
No time de Adil, tinha Jorge Luís (o zagueiro que depois foi Corinthians, Vasco, Flamengo…), Evaldo e Marcelo nas laterais, os ex-periquitos Ailton, Zebu e Ronaldo Cassiterita, o atacante raçudo Osmar Bueno.
Anos atrás, o Tupi desfilaria naquele mesmo gramado com Ari na zaga, Sidnei Diabo Loiro com a 10, Jota Maria atacante explosivo, Ricardo Balbino, Isidoro, são os que nos pedem passagem nos flashes da memória.
E se colocamos o Atlético neste texto, era um tabu caseiro que incomodava. A eles, não a nós. Voltemos, num pulinho, ao Salles Oliveira para resgatar dois gols de Nequinha, 2 a 1 sobre um super Atlético, e o nosso camisa 9, naquela noite, tornaria-se “artilheiro do Fantástico”. Glória.

Estádio Municipal Radialista Mário Helênio
Saltamos para 1997. A Série C era um torneio com 64 equipes, o Tupi ficou entre os quatro, liderava o quadrangular final e restavam três partidas, a primeira delas contra o maranhense Sampaio Correia na inauguração da iluminação do Estádio Municipal Radialista Mário Helênio.
Casa cheia, com chuva. O time acertou duas vezes a trave do Sampaio, mas acabou perdendo o jogo no contra-ataque. Sem título, e sem vaga para a Série B.
O Tupi, de novo, tinha um senhor time. Preto e branco. Grande.
Pulamos para 2014
Nascido, crescido e alimentado na rivalidade com os gloriosos Sport Club Juiz de Fora (98 anos) e Tupynambás Futebol Clube (102) e adversários regionais já inexistentes ou sem futebol, o mais que centenário Tupi Futebol Clube segue sua saga em branco e preto.
Sem se bater e fortalecer com o verde do periquito Sport e o vermelho do baeta Tupynambás, o Tupi, como que à procura por outros rivais tão grandiosos quanto aqueles, locais e regionais, batalha por tudo quanto é canto para manter o seu encanto.
Na história recente, tem títulos, sim senhor. Um Módulo 2 do Mineiro, uma Taça Minas, um brasileiro da Série D e simbólicos títulos do interior.
Hoje, sempre – ou quase sempre – alcança as semifinais do Campeonato Mineiro e brinca com as letras da CBF. No cenário nacional, o carijó desfila ora na C, ora na D, como se estivesse à espreita para dar um bote em direção a uma letra inédita: a “vitamina” B.
No cenário estadual, é um dos poucos genuínos em tempos de equipes baseadas em acordos empresariais e “importadas”. Temos, por exemplo, um Tombense empresarial, um Nacional que era de Nova Serrana, foi Muriaé em 2014 e hoje não se sabe, um Ipatinga que foi Betim (ou vice-versa?), um Boa Esporte que era de Ituiutaba e “mudou-se” para Varginha.
O Tupi segue preto e branco. Original.
Quando a camisa joga, é capaz de virar uma partida “invirável” em cinco minutos, como ocorreu no último jogo em casa. Sofreu um gol do Caxias-RS pela Série C, aos 38 da etapa final e virou, aos 39 e 46.
Lembram-se do lance aos 46? Nem os jogadores do Tupi souberam dizer, à saída de campo, quem havia empurrado a bola para as redes gaúchas, já nos acréscimos.
Ninguém poderia saber mesmo. É que, de fato, nenhum jogador fez o gol.
Quem soprou a bola para dentro foi a camisa do Tupi. Foi a bandeira carijó. As mesmas – e originais – de 102 anos atrás.
Parabéns, Tupi!
Pela coragem e pela teimosia de sobreviver em branco e preto nesse estranho mundo colorido em que se transformou o futebol.
Para um futuro melhor, desejamos sinceramente a quem o conduz que saiba colorir o seu destino, mantendo acesa e revigorada esta chama tão tradicional.
Texto: Ivan Elias
